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Como deveríamos e como consumimos músicas e imagens; por C. S. Lewis

Apreciar imagens de qualidade hoje é uma das coisas mais maravilhosas que temos o privilégio. Se olharmos temporariamente à disposição daquilo que estão tentando nos mostrar dispostos a deixas as noções prévias que temos em nossa visão, a relação com tal imagem pode ser bem distinta do que comumente elaboramos.

Da mesma forma acontece com músicas que gostamos e que nos conseguem embalar sentimentos distintos quando estamos ligados as devidas situações ou sensações daquele momento.

C. S. Lewis no livro Um experimento em crítica literária chega a afirmar que há uma determinada satisfação em poder olhar para um quadro que lhe agrada e sentir prazeres ou dores que lhe remetem a certas lembranças.

Usando como um exemplo, Lewis cita ainda a ligação que tem com sua infância ao ver desenhos quase que ruins, que para ele, lá no passado, sem nenhuma carga de qualidade suficiente para subjugar tais obras, era algo muito bom e que lhe fez ter momentos prazerosos.

Ainda assim, reconhece uma coisa pela qual deveríamos enfatizar nosso apreço nos dias atuais em relação ao que ouvimos e vimos nos passado: jamais ceder ao desejo de dizer “como é que eu pude gostar de algo tão ruim assim?”

A forma como a maioria de nós empregamos a imagem e a música

Gostamos muito de assistir filmes e séries que contam histórias semelhantes as que vivemos. Temos apreços por canções que cantam exatamente as dores que sentimos e até ousamos sofrer ainda mais colocando-as para tocar.

“Quase todas as imagens que, em reprodução, são vastamente populares, são de coisas que, de um modo ou de outro, na realidade agradam, divertem, emocionam ou tocam aqueles que as admiram.”

Para nós, mais importa ceder as emoções que aquilo nos causa, dos que as reprimirmos com mais furor para ver, ouvir, sentir exatamente aquilo que o artista quis passar quando criou sua obra.

Se pensarmos em relação à arte, tudo isso pode ser ainda mais intenso. Gostamos mais porque criamos as nossas próprias semelhanças, não porque foi bonito o que um pintor por exemplo, quis dizer com tal quadro.

Repassar aquilo que de fato quer dizer

Em concordância aos múltiplos sentidos exprimidos que tais obras podem ter, Lewis reforça que “devemos rejeitar imediatamente  a ideia arrogante de que o uso que eles fazem é sempre necessariamente vulgar e tolo”.

E reforça: “pode ser ou pode não ser”. O ponto de vista de uma pessoa pode ser integralmente dissemelhante ao de outro. O que tal coisa pode significar importante para um, pode ser irrelevante para outo. Como disse, pode ser ou não.

“Os usos correspondentes das imagens são extremante variados, e há muito a ser dito para muitos deles. Há apenas uma coisa que podemos dizer com confiança, contra todos eles, sem exceção: eles não são, em essência, apreciadores de imagens.”

Apreciar verdadeiramente é o contrário

“Não devemos deixar nossa subjetividade correr solta sobre as imagens e fazer delas o seu veículo.”

Para Lewis, devemos estar dispostos a deixar de lado todos os conceitos que carregamos, interesses e qualquer outra coisa que venha estar relacionada ao que o artista está tentando passar. É a necessidade de “abrir espaço”.

OLHAR; OUVIR; RECEBER

Vocês jamais vai saber se uma obra de arte merece a sua entrega, se você não estiver disposto a se esvaziar dos preconceitos que carrega para conseguir se entregar verdadeiramente.

“A distinção dificilmente seria mais bem expressa do que ao dizer que os muitos usam a arte, e os poucos a recebem.”

Enquanto você não tiver disposição para se esvaziar, jamais poderá dizer que aquilo é bom. Consequentemente, será mais fácil dizer que aquilo é ruim por não ter consumido. 

“Assim como a primeira exigência da pintura é ‘olhe’, a primeira exigência da música é ‘ouça’. O compositor pode começar a por dar uma ‘melodia’ que você pode assobiar. Mas a questão não é se você gosta particularmente dela. Espere. Preste atenção. Veja o que o compositor vai fazer com ela”.

Amanda Ferraz

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