Trecho sobre solidão em Noites Brancas de Dostoiévski
Noites Brancas (1848), de Fiódor Dostoiévski, é conhecido pelo amor não correspondido: o narrador, um sonhador solitário de São Petersburgo, apaixona-se por Nastenka em noites brancas de insônia, mas o romance entra em desencontros e despedidas amargas.
Por ela que some, por ele que sonha demais, por algo que nunca dá certo, um clássico do coração cheio de pedacinhos por mais ruas.
Mas há um assunto que rouba a cena nas entrelinhas: a solidão como ferida aberta, explorada nesse trecho impactante sobre um visitante que foge de um “excêntrico”. Já pensou?

Trecho de Dostoiévski sobre a solidão
Por que o colega que sai, ao passar pela porta, começa a gargalhar e promete a si mesmo que nunca mais virá à casa daquele excêntrico, apesar de que, no fundo, aquele excêntrico seja um homem excelente; e ao mesmo tempo, ele não pode de maneira alguma negar à sua própria imaginação um pequeno capricho: comparar, ainda que de forma distante, a fisionomia de seu interlocutor de há pouco, durante todo o tempo de visita, com o aspecto de um desgraçado gatinho que tivesse sido maltratado por crianças, aterrorizado e ferido de todas as maneiras, depois de o terem agarrado covardemente e o atordoarem ao extremo, mas que afinal fugira delas para debaixo da mesa, para a escuridão, e ali, por uma hora inteira, é forçado a eriçar o pelo, a bufar e lavar seu ultrajado focinho com ambas as patas, e ainda por muito tempo depois disso, contemplar com hostilidade a natureza, a vida e até mesmo os restos do almoço do dono, guardados para ele por uma criada piedosa?
Você, debaixo da mesa
Você já foi o gatinho. Não tem como negar – o sonhador, você, eu, nós. Maltratado – não por crianças, mas por olhares que desviam, risos na porta, promessas de “nunca mais voltar”.
Excelente no fundo, mas fisionomia de quem foi atordoado. Certeza de que você pensará numa situação exata como esse trecho lido. Concorda sem pestanejar, né?
Escondeu-se na escuridão, eriçando o pelo contra o mundo, bufando para a vida que te feriu. Lavou as patas no focinho ultrajado, sozinho. E odiou até os restos de afeto: aquela migalha piedosa que não basta.
Dostoiévski vê isso
Não conserta. Só nomeia. São Petersburgo não tem noites brancas como as nossas: insônia sem fim, onde sonhamos demais e somem todos. Bem 2026, não concorda comigo?

E se for rolar o feed sozinho, com a luz apagada e poucas motivações para acordar no dia seguinte, todo sentido desse trecho de Dostoiévski sobre isolamento faz sentido de um jeito bem pessoal. Certo?
E se o visitante for você?
Às vezes, rimos ao sair. Gargalhamos para não ver o excêntrico em nós. Fugimos prometendo silêncio eterno. Mas a imaginação capricha:
- compara, de longe, com o gatinho que ainda bufa lá dentro.
Noites Brancas é isso, não é um mero romance – nem de longe ou muito perto -, mas o eco da solidão que nos faz hostis à própria natureza.
Guarde esse trecho para as suas noites, principalmente aquelas em que sua mente parece querer juntar em ordem crescente os piores momentos de solidão que você já sentiu.
Leia a novelinha literária de Dosto inteira quando a escuridão chamar, não haraverá arrependimentos. O que você eriçaria o pelo hoje?

