Poema Meu verdadeiro amor em Atenas de Charles Bukowski

Charles Bukowski sempre cutucou as feridas do amor com uma faca cega: nada de romantismo açucarado, só sangue, solidão e o caos da vida real.

Esse poema dele, de Sobre o Amor, me pegou porque reflete como a gente se ilude com conexões passageiras, enquanto o verdadeiro afeto parece preso no tempo, inalcançável como uma memória de Atenas antiga. É cru, visceral!

Sou fã de como ele transforma o toque de uma rosa em algo perigoso, misturando história, guerra e o absurdo do dia a dia. Bukowski não pinta amor como salvação; ele o mostra como uma armadilha que coça e sangra, mas ainda assim nos faz rir do ridículo.

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Meu verdadeiro amor em Atenas

Eu me lembro da lâmina afiada, do jeito que você acaricia uma flor e termina com sangue nas mãos

e como você encosta no amor do mesmo jeito, acuado por carretas na estrada escura sob luar, rugindo e freando sua coragem,

enquanto flashes invadem a mente: Cristo na cruz, Hiroshima em ruínas ou sua ex fritando ovos na panela.

O jeito que você toca uma flor é o jeito que você roça as bordas frias dos caixões dos mortos,

o jeito que você toca uma flor e vê os mortos dançando de volta sob as unhas; a lâmina,

Gettysburg, Ardenas, Flandres, Átila, Mussolini

de que me serve a história quando tudo vira sombra das três da tarde sob uma folha?

Meu Trecho Favorito

Mas de que me serve o amor quando todos nascemos em diferentes momentos e lugares e só nos encontramos através de um truque dos séculos e três passos casuais à esquerda?

Você quer dizer que um amor que não encontrei é menos do que um egoísmo que chamo de próximo?

Posso dizer agora,

com sangue de rosa no fundo da minha mente, posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas

e toneladas de força explodem no fim do espaço,

fazendo Colombo parecer um moleque bobo.

Posso dizer agora que gritei na noite sem eco,

me lembro da lâmina e fico num quarto gelado, roçando os dedos no tique-taque do relógio, pensando em Ajax e cuspindo

em galinhas burras cruzando trilhos dourados.

Meu verdadeiro amor está em Atenas, 600 a.C. ou d.C., enquanto pombos trombeteiam fora da janela e por uma porta de espera longa, rosas não entram nem saem,

nem amor, nem mariposas, nem raios – eu não solto suspiro ou sorriso; poderiam nadar como mariposas ou homens

existir como luz laranja sobre papel rasgado por nove?

Atenas fica a milhas e uma morte de distância, mesas sujas pra caramba, lençóis e pratos imundos, mas eu rio: isso não é real;

mas é, fatiado por nove ou cem;

roupa limpa é amor que não coça nem suspira.

é esse.

Charles Bukowski (1920-1994) foi um escritor americano de origem alemã, rei da poesia beat e prosa suja, com mais de 60 livros sobre alcoolismo, sexo e a ralé urbana, alter ego Henry Chinaski em hits como Post Office e Mulheres.

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