Prosa Florinda e Florentina de Murilo Mendes: você merece essa leitura

Em “Florinda e Florentina”, crônica clássica de Murilo Mendes, o autor evoca as gêmeas idênticas que encantaram sua infância em Juiz de Fora, no início do século XX.

Quase inseparáveis, como irmãs siamesas, elas personificam a ilusão da identidade perfeita em uma cidade pequena, onde a imaginação transfigura o cotidiano.

Florescentes e morenas, as irmãs estudam, brincam e crescem sob aplausos e invejas, até o inevitável golpe do amor: a paixão pelo mesmo homem até à loucura.

Extraída das prosas de Murilo Mendes, te damos uma leitura rápida e divertida para agora.

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Prosa Florinda e Florentina de Murilo Mendes

Florinda e Florentina são as amadas gêmeas juiz-foranas do meu tempo de menino. É certo que não existem sobre a terra duas coisas ou dois seres absolutamente idênticos; mas Florinda e Florentina iludem pela sua semelhança. A não ser os pais, quem poderia distingui-las.

Têm a mesma estatura me-diana, olhos morenos de primeira classe, cabelos pretos seguros por fitas iguais; portam vestidos e sapatos gêmeos. Florinda e Florentina, quase irmãs siamesas, não se separam. Eu as vejo diariamente rumo ao colégio; de vez em quando na casa de Sinhá Leonor.

Abre-se agora o tempo das revelações, das revoluções, da descoberta do sexo e da fábula. Escapando-nos o mar, oprimindo-nos a montanha relativa, a gente se vinga com um desafio maior ao cotidiano; a cidade, pequena, ao mesmo tempo que nos circunscreve, propõe-nos um treino mais intenso dos sentidos e da imaginação.

Evadimo-nos da realidade transfigurando-a. Até mesmo pessoas adversas costumam avizinhar-se à nossa experiência de ternura e de fundação do mito. Florinda e Florentina, flóreas, florescentes, dão de pernas, balançam-se na gangorra, abanam-se com rodantes ventarolas, pianolam e bilboqueiam a quatro mãos, riem e choram simultaneamente, trocam ritmos harmônicos ou dissonantes.

Assim estudam, recíprocas aludindo-se, assim crescem em plástica e movimentação, delícias morenas da cidade, num contexto de adorantes aplausos e secretas invejas: além do mais, pertencem à burguesia rica. A fama da graça e simpatia de Florinda e Florentina estende-se a Belo Horizonte, ao Rio, talvez a São Paulo, talvez mesmo, quem sabe, a Bang-kok.

Mas Juiz de Fora as possui na sua feminilidade e plenitude, intactas: não se repartem pelo mundo, a televisão inexiste. Até que chega o dia desde sempre inscrito nos arcanos do tempo, o dia do golpe amoroso. Florinda e Florentina enamoram-se do mesmo homem, Roberto D…, próximo futuro médico, filho de um capitalista local.

A namorada escolhida é Florinda. Embora não tenham segredos uma para a outra, Florentina oculta à irmã sua paixão, servindo-lhe ainda de cúmplice e pau-de-cabeleira. Para o casamento a se realizar na igreja matriz em 1914 movimentam-se todas as “pessoas de destaque” da antiga Juiz de Fora. Até então eu nunca vira tantas mulheres e moças bem vestidas, concentradas num mesmo lugar.

No momento exato em que o padre Augusto S. une em matrimônio Roberto D… e Florinda segundo o rito da Santa Igreja Católica, Florentina sai do círculo familiar, atropela duas rígidas demoiselles d’honneur muito orgulhosas do seu papel; magnífica, num também vestido branco, virada para os convidados exclama com toda a força:

“O noivo é meu! Vejam! Eu sou Florinda! Houve troca de cara e de corpos!”

Dá um violento empurrão na irmã, arrebatando-lhe a coroa de flores de laranjeira. Tudo isto se passa num relâmpago. Interrompe-se a marcha nupcial de Mendelssohn; a noiva perde os sentidos. Segundo Machado de Assis a confusão é geral.

Passados quinze dias internam Florentina no hospício de alienados, no Rio, onde posso visitá-la alguns anos depois. Continua a atribuir-se o nome de Florinda, tendo bem visível em cima da mesa uma coroa de flores de laranjeiras.

Durante a conversa insiste no mesmo ponto: o noivo é seu, sempre foi seu, tendo havido naquele dia uma inexplicável permuta de pessoas; mas tudo acabará por se esclarecer.

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